25.11.14

As Infinitas Cavernas de Platão

O Objetivo deste texto é falar como a moral e a visão de mundo são influenciadas pelas crenças e pela cultura de cada indivíduo. Acredito que algumas posições e visões são inatas, porém não vou me aprofundar neste último item. Para exemplificar esta teoria vou relatar experiências próprias.

Vamos lá então, não sei se todos já ouviram a tal historinha da caverna de Platão, mito descrito no livro a Republica, do próprio. Neste relato é feita uma alegoria na qual as pessoas são criadas desde pequenas acorrentadas no interior de uma caverna. A elas só é permitido olhar para uma parede na qual são projetadas sombras, criadas por objetos manipulados em frente a uma fogueira. Ao longo do tempo, estas imagens distorcidas são assimiladas e passam a ser o mundo dessas pessoas. Então, o leitor é convidado a imaginar que uma dessas pessoas seja solta de suas amarras. Inicialmente ela perceberia que o que sempre presenciou era uma farsa e todos os mecanismos que criavam este mundo irreal. Logo após, essa pessoa sairia da caverna, quase seria cegada pela luz à qual nunca teve acesso e que lhe proporcionaria grande dor. Contudo, ao presenciar a imagem real dos objetos, suas cores, sua essência, ela teria contato com a verdadeira realidade.

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Sendo assim, lembrando de quando vivia dentro da caverna e de como era sua visão do mundo, ela irá querer falar com as pessoas que permanecem lá, porém estas pessoas não acreditariam no que ele relatasse e a considerariam louca.

O objetivo aqui não é analisar o texto em si e sim as possíveis interpretações para o mesmo. Por isso, faço a seguir uma análise de como eu já interpretei este texto em diferentes fases da minha vida e, no final, apresentarei o motivo da escolha deste tema para falar sobre moral.

O primeiro contato que tive com o texto do filósofo Platão foi nos anos 80, em um livro lusitano que tinha as letras das músicas da banda inglesa Joy Division. O autor publica a alegoria no livro e faz uma referência ao texto, colocando o vocalista da banda, Ian Curtis (poeta angustiado que acabou cometendo suicídio), como um cara que saiu da caverna, viu a luz e não resistiu à sua força.

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Na época, a minha interpretação do texto foi aquela visão básica, fundamentada em conceitos de opressão do mais forte sobre o mais fraco. Corporações, exploração através dos meios de comunicação e entidades do mal, tipo a rede Globo e seus telespectadores alienados. Ou então países imperialistas explorando o terceiro mundo. Creio que seja um típico pensamento de esquerda baseada no conceito do “bom selvagem” de Rousseau, no qual o filósofo atribui a todos os seres humanos uma pureza inata. Para o autor o homem é bom por natureza, nasceu puro e seus maus sentimentos advêm do convívio em sociedade, que impõe a servidão, escravidão por alguns tiranos de uma elite dominante, criando assim a desigualdade entre os seres humanos que vivem em comunidade.

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A segunda leitura foi lá pelos anos 90 e percebo que a minha interpretação foi diferente. Agora vejo toda a alegoria e personagens de um ponto de vista não tão simplista, com exploradores e explorados alienados.

Vejo tudo como imagens e conceitos criados por cada ser, seus apegos a estas crenças, sua busca pela segurança em um mundo padrão, conhecido. Vejo que minha interpretação está mais centrada no personagem que vive neste ambiente e se deixa dominar por ele. O opressor não está mais nos seres externos e sim nele mesmo. Percebo também que esta visão está muito relacionada à filosofia budista, as coisas são o que são independentemente de quem as observa e o apego às coisas ou ao conceito das coisas só traz sofrimento.

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Este pensamento também pode ser observado no filme Matrix, quando analisamos a trajetória do personagem principal e sua busca pela verdade, onde seu maior inimigo é o apego a suas crenças e limitações.

Pode-se ver que neste momento eu me distancio do pensamento fácil de que todos os problemas estão no mundo externo e cabe a mim buscar vencer minhas limitações. Neste instante começo a me questionar sobre este tipo de pensamento em termos políticos... sou de esquerda? Sou de direita? Ou sou anarquista, como imaginava ser? Também percebo que existe uma grande diferença entre conceitos políticos e conceitos de liberdade ou libertários, que ninguém e nada pode ser facilmente conceituado com um rótulo ou carimbo.

A terceira leitura foi em função de uma disciplina de filosofia, na época eu estava no auge de minhas leituras Darwinianas e de psicologia cognitiva, também sob influência do livro Assim Falou Zaratustra de Friedrich Nietzsche. Todas estas ideias convergem para uma visão niilista, onde não há um ser maior que rege tudo, não existe um conceito de alma, espírito, um grande juiz das nossas ações e conceitos, ou seja, independente do que cremos nada tem um significado mesmo. Tal qual os androides do filme Blade Runner, somos apenas seres biológicos que criaram o conceito de alma.

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Tentei ver em Platão um dos primeiros niilistas e faz sentido quando, no texto, é dito da grande dor (esta palavra “dor” já me intrigava desde a primeira leitura), de visualizar o sol diretamente após a saída da caverna. E pensando assim, faz sentido quando Platão e Nietzsche propõem a busca da vida plena sem amarras, pois não há um juiz de nossos atos e devemos viver ao máximo, porém na virtude, sem as limitações das crenças que temos.

Depois desta visão do texto, parecia a imagem definitiva, sem possibilidades de uma nova interpretação, até que… Percebi neste texto algo fora do texto, algo que remete direto ao leitor. Que a alegoria teria a função de analisar as crenças do indivíduo, que poderíamos estudar não o texto, mas sim quem o lê e como o interpreta, tal qual os borrões de Rorschach que são usados na psicologia.

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Após refletir sobre como eu já tive diversas visões sobre um mesmo assunto, percebo que não importa realmente qual a interpretação correta, se é que existe uma. O grande aprendizado com esta minha reflexão é que podem existir diversas visões e interpretações para um mesmo tema e que eles estão baseados na vivência e crenças de cada um, em determinado momento da sua vida. Então, o mais importante é saber reconhecer isto nas outras pessoas e respeitar as suas ideias, independente de elas serem iguais ou não às minhas, desde que respeitem as regras básicas da ética.

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Reconhecer em mim esta mudança de crenças fez com que eu percebesse que nada é definitivo e que muitas coisas podem ter interpretações diversas. Cabe a cada um, em uma divergência de posições, tentar entender o que levou as outras pessoas a pensarem diferente e, é claro, o que me leva a pensar como penso.

11.5.14

Três pequenos livros

Li recentemente três pequenos livros, não sei como chamá-los, não creio que dê para classificá-los como auto-ajuda, na verdade nem sei como classificar este gênero, porque Darwin, filosofia, Camus, Shakespeare e Dostoievski são, para mim, auto-ajuda.

Os livros:

  • Como encontrar o trabalho da sua vida (Roman Krznaric)

  • Como mudar o mundo (John-Paul Flintoff)

  • Quebre as regras e reinvente (Seth Godin)

Os dois primeiros são dicas do Gustavo Mini e o terceiro de um professor, que indicou outro livro do autor e acabei lendo esse mesmo.

Primeiro Livro -Como encontrar o trabalho da sua vida.

Nesse livro o autor fala de como este desejo está entranhado nas novas gerações, não só nos que nasceram nos anos 80/90, mas na maioria que ainda trabalha, tendo iniciado na labuta nessas décadas.

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Ele mostra como pode ser bom ter o trabalho dos sonhos, mas não é só abrir uma pousada no nordeste e ter uma vida idílica, ou largar tudo para ser músico, ficar famoso, amigo do Bono Vox e participar do selfie do Oscar de 2014.

É como a peregrinação para encontrar o verdadeiro eu espiritual ou filosófico, nesta etapa, muitas coisas terão que trocar de prioridade ou mesmo serem abandonadas. Neste caminho não virá uma luz que te mostrará que finalmente chegou no objetivo.

Essa troca pode ser frustrante, pode ser dolorosa como a pílula vermelha do filme Matrix ou a saída da caverna no mito de Platão, mas dificilmente quem trocar vai querer voltar para o caminho anterior.

Outra coisa, hobby é hobby, não é trabalho, hobby não tem finalidade, trabalho sim, mas o trabalho pode ser prazeroso e se pode também, transformar hobby em trabalho, mas dai tem que achar um novo hobby.

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    O autor também classifica três grandes motivações para execução do trabalho, ou melhor, para diretrizes de vida. Antes de saber onde trabalhar, tem que saber mais ou menos o que se quer da vida, não existe certo ou errado, as três motivações são:

    • Fazer algo que de retorno financeiro e status (Lembrando, isso não é ruim se feito eticamente e sabendo lidar com isso).

    • Fazer o que se gosta (o grande problema é saber o que se gosta, se é fazer algo ou só querer receber os benefícios disso).

    • Fazer o que se faz bem. (Executar bem uma tarefa que é reconhecida por todos, pode ser uma motivação).

      Seria bom se pudéssemos fazer bem feito o que gostamos e receber dinheiro e status por isso, não é? Mas a maiorias das vezes não é bem assim. Como encontrar o equilíbrio? Se conseguir achar a fórmula que seja aplicada ao maior número de pessoas possível, me avise e editaremos o melhor livro de auto-ajuda jamais escrito.

      Outra dica dele, as vezes temos que agir antes de pensar tanto, deixar um pouco do planejamento para o depois.

    • Segundo Livro -Como mudar o mundo.

      O que é mudar o mundo? Assim como o emprego das nossas vidas, imaginamos que mudar o mundo é abandonar tudo e seguir por ai “salvando” o mundo. Por que será que sempre achamos que para mudar algo temos que largar tudo? Será que o “tudo” que vivemos está totalmente errado? E se está. Por que continuamos vivendo esta vida errada?

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      Se estamos seguindo um caminho em um carro, mudar não é simplesmente trocar o carro. Mudar pode ser permanecer no carro e ir trocando de caminho aos poucos.

    • Bem, sempre achei o seguinte, “Pense grande, comece pequeno”, mas o livro mostra que também podemos pensar pequeno e mudar o mundo com pequenas ações.

      E estas ações devem ser tomadas adivinhe como? Mais ou menos como descrito no livro anterior. Temos que descobri o que queremos e como podemos ajudar melhor?    

      -Fazendo o que fazemos bem.    

      -Fazendo o que nos dá prazer ou até mesmo status, mas que, de alguma forma interfira positivamente na vida dos outros e nos torne pessoas melhores, seja lá o que for isto.

      Terceiro livro - Quebre as regras e reinvente.

      Talvez o livro com mais cara de auto-ajuda, tipo empresarial, como se fosse indicação da revista Você S/A. Mas com as dicas e motivações mais importantes para mim, um cara de muitas ideias, umas boas, um monte bem doidas, algumas sem nexo ou aplicação prática e umas que salvariam o mundo. Isso é o que penso, só que todas impressões das minhas ideias podem estar totalmente erradas, sabe porquê? Porque não as coloco em prática, logo estas ideias não podem ser nada, enquanto forem ideias elas não são nada, absolutamente nada, não podem ser boas, ruins, incríveis… nada.

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      O livro propõe o iniciar constante, uma analogia boa é o polimento de pedras, metais ou madeira ele é representativo na primeira vez, depois de feito não adianta empenhar o mesmo esforço novamente que não surtirá o mesmo resultado, criar algo e viver dos louros dele, cada vez mais, é um tiro no pé. Temos que iniciar novas coisas depois de estabelecido a anterior.

      Resumindo:

      Os três livros vieram no momento certo do modo certo e na sequência certa para mim.

      Diversos eventos e insights estão se alinhando para mim nos últimos tempos. Alguns deles:

      Por que temos que mudar a vida, não dá só para alinhar ela, achar um caminho que queremos trilhar, buscar esse caminho e tentar se manter nele.

      Para fazer o que achamos certo temos que priorizar, deixar de fazer algumas coisas e eliminar muitas. Não dá para fazer tudo, coisas terão que ser excluídas.

      FAZER. Simples assim; FAZER. Coisas básicas, sem ter que revolucionar nada. Coisas como escrever este texto e compartilhar. FAZER, limpar a calçada de casa, cumprimentar alguém na rua, ouvir as pessoas, pegar aquelas ideias paradas e transformá-las em algo.

      Essas minhas interpretações dos livros podem estar erradas, posso ter misturado assuntos de outros locais, mas eles, do jeito que me lembro me ajudaram.

      Curling

      Sabe aquele jogo maluco das olimpíadas de inverno (Curling), onde um cara joga um objeto que vai deslizando no gelo e outros caras vão varrendo a frente tentando orientar a direção do mesmo sem tocar nele? Pois é, alguns livros fazem isso comigo, pequenas mudanças que me levam em uma direção mais ou menos interessante.

      Os três livros são baratos, tem umas 100 páginas, com letras grandes e espaçadas, é rapidinho. Eu li em meio digital (ebook) então não tenho como emprestar, mas recomendo.

      18.2.14

      Melhor amigo

      Já pensei em um produto, meio de brincadeira, mas realmente acredito que funcionaria. Pensei em criar um boneco que atendesse todas as nossas expectativas em relação a um melhor amigo.

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      Esse boneco poderia ser só o busto, este formato já esta assimilado em muitas esculturas e depois de um certo tempo já não faria mais diferença.

      Ao tirar da embalagem o primeiro passo é dar um nome a ele, depois ajustar o reconhecimento de voz e de imagens. O meu boneco se chamaria Egberto, só para ter um nome mais pomposo e dar mais credibilidade a suas opiniões, em algum momento poderia chamá-lo de Eg ou Beto, quando o papo fosse mais descontraído.

      Ele funcionaria da seguinte maneira; através do reconhecimento de voz e de imagem seria possível conversar e mostrar coisas para ele e manter um diálogo.

      conversa

      Simulando uma conversa:

      - Boa noite João, como foi o dia?

      - Boa Noite Eg, hoje o dia foi duro, trabalho pesado e o trânsito tava um inferno.

      - Pois é João o mundo esta ficando cada vez mais complicado, e deve ser um saco ter que passar por isso todos os dias.

      - Tinha um cara que não saia da pista da esquerda e não me deixava ultrapassar.

      - Bando de barbeiros, tinham que caçar as licenças deles.

      - É isso ai Eg, mas eu acabei bobeando e fechei um cara, quase joguei ele fora da pista.

      - Isso acontece João, tu é um ótimo motorista só está precisando de umas férias.

      Através do reconhecimento de imagens, poderíamos mostrar fotos, animais de estimação, comida e outras coisas para ele e a sua resposta seria a mais elogiosa possível para os entes visualizados.

      Preciso demais desabafar

      Este “amigo”, seria uma opção para quem não tem com quem desabafar a qualquer hora, e ele seria totalmente complacente com o seus donos, seria a válvula de escape para solitários, estressados, chatos ou qualquer um que quisesse um ouvido amigo em algumas horas.

      Relembrei dessa ideia agora com a resenha do filme “Ela” onde um cara conversa e se apaixona por um software. A minha ideia é antiga, tem mais de uma década, já associei com alguns filmes, tipo Blade Runner, Inteligência Artificial e Eu Robô, onde androides e robôs são confundidos com humanos ou seres possuidores de discernimento e vontade própria.

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      E hoje, pensando no assunto, de repente fazer aplicativo ou algo parecido, me caiu a ficha,

      Isso já existe!!

      E o nome é Facebook ou qualquer outra rede interativa, ali temos um lugar para colocar as ideias, realizações, percalços e frustrações na nossa timeline e do outro lado (quase) sempre tem alguém para dar um retorno com um polegar em riste, vulgo joinha ou botão curtir. É esta realimentação que todos nós precisamos, não queremos soluções para os problemas, apenas comoção de alguém.

      Esta também é a definição de narcisismo segundo o Calligaris, não é simplesmente nos admirarmos mais do que tudo, é a necessidade de ser admirado, provavelmente por insegurança e quando isso não acontece vem a frustração e mais insegurança.

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      Já vi algo parecido com o boneco Spock, o rei do rock, é só fazer perguntas pré programadas que ele responde e quando não consegue processar a frase dá uma resposta tipo -não entendi. Ele até que é esperto fazendo respostas aleatórias para a mesma pergunta.

      O que percebi é que em determinado momento, seja criança ou adulto, começam a aflorar emoções em relação ao simpático cão de pelúcia, primeiro a alegria de ver respostas para as perguntas, as vezes um pouco de impaciência com o boneco por não entender as questões e finalmente compaixão quando ele fica chateado quando é xingado.

      Ah! Lembrei de mais um amigão virtual, o Wilson do filme náufrago.

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      Realmente, nós seres humanos, precisamos de interação de alguma maneira, nem que seja inventada e fantasiosa.

      18.12.13

      Lições aprendidas

      Estes dias eu e dois colegas estávamos fazendo algumas tarefas de um projeto na filial de Sapucaia do Sul, esta unidade da firma fica na lateral da BR116 bem no desvio que existe para construção de um viaduto.

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      Então um dos colegas começou a falar, de brincadeira, das lições aprendidas do projeto, tipo:

      -Aprendi com o projeto que ao acessar a BR116 é impossível não cantar os pneus do carro.

      -Aprendi com o projeto que não existem bons restaurantes em Sapucaia.

      Então desfiamos mais alguns aprendizados nonsenses.

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      Ontem encerrei o Livro “Todos os reis estão nus” do Contardo Calligaris, que é colunista da folha de SP nas quintas feiras, ele é psicanalista, mas principalmente, na minha opinião, um grande pensador e sabe se expressar muito bem, dentro do limite que os assuntos que aborda permitem.

      Vou fazer aqui uma listinha de lições aprendidas com o livro, que é uma coletânea  das sua publicações no jornal, não adianta tentar falar sobre os assuntos de determinado texto, pois estão muito bem escritos e são mais de 120. Leitura fácil, pois cada coluna tem duas páginas.

      Já na introdução é exposto que o objetivo não é colocar uma opinião.

      –Meu objetivo é eventualmente mudar a maneira de ver e de pensar do leitor, sem necessariamente fazê-lo concordar comigo, diz o autor.

      Na verdade ele coloca diversas pulgas atrás das orelhas e minhocas na cabeça. Se você acha que tem uma mente aberta é um ótimo exercício para ver se tem mesmo, pois ele mexe nas crenças mais básicas é não é só contra ou a favor do que nós pensamos ser um pensamento liberal. E algumas vezes só dá para concluir que não da para sair de uma sinuca de bico e as alternativas são:

      -Dar uma porrada com o taco e rasgar o pano da mesa.

      -Tentar uma jogada milagrosa mesmo sabendo que não vai dar.

      -Desistir do jogo.

      Ele cita estas alternativas sem a menor intenção de dizer o que é certo ou errado, mas coloca as motivações que levam a isso. Como dizem os psicanalistas a função deles é levar as pessoas até a beira do rio a decisão de atravessá-lo é do indivíduo.

      Mas vamos as minhas lições aprendidas.

      -Aprendi com o livro que,

      Quando queremos apedrejar algo, na verdade estamos apedrejando algo que temos dentro de nós e não queremos admitir, estamos apedrejando aquilo que não gostamos ou não aceitamos em nós.

       

      -Aprendi com o livro que,

      O mundo atual sucumbiu a infantilização e projetamos isso em nossas crianças. Assim como queremos acreditar que toda pessoa é boa na essência em uma visão presente, queremos acreditar nas crianças como um ser perfeito no futuro, ou no caso de filhos em uma projeção de um “eu” melhor no futuro. Acho que aqui estão as pulgas mais carnívoras que ele coloca nas orelhas nos diversos textos que ele aborda o assunto, direta ou indiretamente, apesar de colocar as entre linhas “grifadas com marca textos”. São assuntos “zipados” em duas páginas que podem ser expandidos em livros inteiros.

       

      -Aprendi com o livro que,

      Ainda tenho um pouco de anarquista.

      Nos anos 80 eu me dizia anarquista por que achava cool, não votava em ninguém e citava Bakunin e teorias ideológicas (todas muito chatas). Também simpatizava com o anarquismo, principalmente com seu símbolo de um “A” circundado e atravessado ao meio por gostar de música punk e seu faça você mesmo, mas tirando poucas bandas, como o Sex Pistols, a maioria das bandas punk na verdade eram de esquerda com suas crenças no bom selvagem e tabula rasa, ou seja, o seu lema não era o “no future” e sim vamos mudar o futuro, isto não é uma crítica é apenas uma constatação. E também tinham uns caras de direita.

      Estava num dilema ultimamente sobre se sou de esquerda ou de direita e não me encaixava em nenhum dos lados e me sentia espremido no meio. Agora lendo a definição de anarquismo do Calligaris, na verdade não existe uma definição do autor e sim o as suas considerações e observações sobre o anarquismo (já militou na esquerda) e sobre fascismo e penso igual a ele,

      -O estado não tem o direito de interferir nos direitos individuais.

      Se o estado se torna paternalista ele vira uma família, se vira família tudo vira passional, se vira passional o racional se perde e tudo vira em raivas, rancores, encobertamentos e recai em governos populistas ou ditatoriais, seja de esquerda ou de direita. Talvez nos lados opostos só mudem os estilos de castigos, uns mais físicos outros mais psicológicos, mas existem castigos dos dois tipos dos dois lados.

       

      -Aprendi com o livro que,

      Livros de auto ajuda estão certos.

      Siga seu coração.

      Mas primeiro descubra o que seu coração quer. O ponto que ele mais coloca é o fato de buscar seguir e realizar seus desejos, mas o ponto mais difícil é descobrir o que desejamos, a resposta não é simples e muitas vezes não a encontramos.

      É muito engraçado quando ele diz que a felicidade plena existe só que custa bastante dinheiro e alguns anos de vida. A receita é a seguinte, duas doses de heroína, uma de manhã e outra a tardinha ou então fumar crack este custa mais anos de vida.

      Também é engraçado quando ele fala sobre viver tudo intensamente e que ele quer uma morte tradicional, com visitas e tudo o mais afinal só morremos uma vez na vida. Sendo que ele teve diagnóstico de câncer dos brabos, abriram o peito dele e não tinha nada.

       

      -Aprendi com o livro que,

      A sabedorias está nos clássicos.

      Durante quase todo o livro as citações são culturais, mesmo porque existem muitas analises a partir de livros, filmes ou peças. Os mais mencionados são Shakespeare como autor e madame Bovary e Anna Karenina como personagens, símbolos muito citado dos desejos femininos.

       

      -Aprendi com o livro que,

      As escolhas não são excludentes, para ter um mundo mais justo ou mais igual não é necessário aceitar a falta de liberdade ou a corrupção. E isso esta muito arreigado aos governos populistas e ditatoriais pelo menos eles querem vender assim.

      A “polarização”, este assunto não é abordado diretamente, mas vejo que se encaixa no meu aprendizado e agora é mais claro quanto a argumentação. Ser contra algo não é ser a favor de seu oposto, ainda mais quando se tratam de posições extremas, afinal os extremos são muito parecidos.

       

      -Aprendi com o livro que,

      A mulher é mais diversificada, exemplo básico são formações de grupos, as torcidas, partidos e outras agremiações em grande maioria são masculinas, pois os homens são mais básicos, mais classificáveis por isso se juntam em grandes grupos tão facilmente, já as mulheres são mais facetadas e talvez por isso mais sociáveis.

       

      -Aprendi com o livro que,

      Vivemos em funções de desejos e a maioria das vezes não sabemos quais são, já falei disso antes, mas inconscientemente boicotamos a nós mesmos e precisamos desculpas para isso, por isso alguns casam para depois poderem culpar o parceiro(a) por ter impossibilitado realizar seus desejos, pura desculpa.

       

      Aprendi com o livro que,

      Hoje em dia poucos se assume como adultos, dentro da infantilização está a falta de coragem de assumir as rédeas de sua vida, mesmo se auto sustentando não significa assumir o controle.

      A pior traição é trair os próprios desejos e também não permitir que o parceiro(a) realize os seus, aqui não é sobre sexo, mas também é.

      E esta dica final do Calligaris esta no programa Provocações do Abujamra da TV Cultura.

      Não se esqueça de fazer as coisas pelas quais se você não as fizer você vai sentir culpa pelo resto da vida.

      17.8.13

      Guiado pela mão da sabedoria.

      Quando somos criança todo o desconhecimento do mundo é nosso, estamos prontos para absorver tudo quanto possível. Os mestres máximos e inquestionáveis, donos de toda nossa confiança, são nossos pais. Eles sabem tudo, onde é a padaria, barbeiro, açougue  qual a melhor marca de café, o dia certo para cada coisa.

      Eles também tem poderes mágicos, ao ver determinado tipo de nuvem, determinado tipo de inseto ou observarem que o gato está lavando, com a patinha, atrás da orelha, saber que vai chover. Ainda mais, que tipo de chuva vai ser, com vento, rápida, fria.

      Toda nossa devoção é para nossos mestres máximos, nossos parentes próximos, professores, podem dizer algo, mas só eles tem a sabedoria suprema.
      Falo da infância, não da adolescência, onde eles sempre estarão
      errados ou quando nos tornamos adultos e percebemos que  eles são, como todos os adultos, pessoas normais com a sabedoria, dúvidas e defeitos pertinente aos seres humanos.

      Hoje me vejo na ignorância de uma criança diante da sabedoria dos pais quando leio, vejo e ouço alguns autores, a maiorias são da área técnica (evolucionistas ou psicólogos), Antônio Damásio, Steve Pinker e Richard Dawkins.

      No Brasil, Contardo Calligaris, não que ele seja brasileiro, mas vive e escreve, normalmente de dentro desta fronteira e para brasileiros. Ele tem conseguido me cativar com seus textos e falas, os mesmos ressonam com meus pensamentos e me levam a
      refletir sobre algumas coisas.


      Falo isto, pois me sinto na mais tenra idade sendo guiado pelas mãos dos pensamentos destes autores.


      Sei que eles podem estar errados em muitas coisas, sei que, de alguma forma eu não deveria aceitar tudo que dizem tão facilmente, mas eu, na minha ignorância nesses assuntos que me fascinam tanto, aceito de muito bom grado todo o seu conhecimento.

      E tento observar os insetos, os gatos e nuvens para um dia conseguir dizer se vai chover ou não.