3.3.10

Nothing Comes easy

Estava sentado em uma calçada, as mesas do bar atrapalhando o trânsito dos pedestres, mas não estou nem ai. Moro no prédio que tem o bar e só transito pela calçada pela manhã, quando vou para o trabalho. O supermercado é para o outro lado, tudo que frequento é para o outro lado, até a volta do serviço é para o outro lado, então, não to nem ai. O único lugar que vou as vezes é a farmácia que fica do lado do bar do meu prédio, por sinal tem uma criança sobre a balança agora, ela pesa 15 kg, nossa! nunca tinha parado para pensar no peso dum piá deste tamanho.

Ele faz bolhas de sabão, agora estourou uma e de dentro saiu um 15 kg, com aquelas letras tipo futuristas dos anos 80, acho que o nome da fonte é… sei lá, tipo as que apareciam nos monitores dos computadores dos seriados de nave espacial dos 80.

Agora ele sopra de novo, o ar atravessando pelo anel untado de água e sabão. Saíram dali 5 bolhas, três estouraram em sequencia e de cada uma saiu uma palavra, com letras flutuantes, como móbiles. A primeira bolha continha “Nothing” a segunda “Comes” e a terceira “Easy”, as outras duas vieram em minha direção e estouraram do lado esquerdo e direito da minha cabeça com uma pequena diferença de tempo, de dentro saíram sons, com esta diferença de tempo gerou uma espécie de frase em estéreo “ notNhOiTnHgIcNoGmCeOsMeEaSsEyASY.

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Exatamente a meia noite começou meu sonho, o boneco de marshmallow, como aquele do filme caça fantasmas, vinha em direção ao meu prédio, cinco passos ele deu até eu acordar e perceber que este sonho foi induzido por tiros de canhão que comemoravam alguma data no parque próximo  de onde moro, na rua pessoas corriam atônitas, eu também não sabia a origem do barulho, só fui saber no outro dia. Loucos esses caras, tiros de canhão a meia noite? para comemorar uma data regional que nem é feriado? Mas o que foi estranho é que depois de tomar água e tentar pegar no sono novamente, toda a cena e sons do episódio das bolhas de sabão vieram a tona, como se o tempo que estive no bar tivesse ido direto para meu inconsciente e só agora  tudo foi percebido.

puft

Nothing Comes Easy, o que significa isto? Não teve como eu não lembrar do personagem Hurley do seriado Lost, que ganhou na loteria e depois disto um monte de episódios desastrosos começaram a acontecer, esta é a minha visão de uma coisa que vem fácil,  quando o milagre é demais o santo desconfia, pelo menos é esta idéia que desde pequeno me foi ensinada.

Mas eu tinha que descobrir qual o significado disto, como o sono não vinha, fui para o computador pesquisar, depois do obvio, numerosas descrições de como o universo responde aos teus atos, milhões de citações do “Segredo”, algumas coisas interessantes da filosofia oriental, me aparece a frase como um título de uma música. O autor um tal de David Edge de uma banda inglesa chamada de Wedding Present. Li a letra, nada muito além do esperado. O sono começou a vir, botei a baixar a música e outras mais da banda.

George

Acordei pela manhã bastante encafifado com aquela mensagem, carreguei as músicas no fone e fui pelo caminho que passa em frente ao bar, na verdade não é o caminho correto, apenas dei uma volta a mais na quadra para pegar o ônibus. A farmácia estava aberta mas sem crianças, o bar fechado com mesas e cadeiras acorrentadas e atrapalhando menos o trânsito dos pedestres. Sotaque estranho dos britânicos, normalmente não notamos sotaque quando cantam, mas ele fala Báck e não com o sotaque tradicional do inglês americano que aprendemos= beck. Músicas estranhas também, palhetadas meio secas e misturadas com outra guitarra.

Trabalhei pela manhã meio desatento, pesquisas na internet por possíveis novas pistas, mas realmente nada de novo. Comecei a perguntar para umas pessoas, o que elas pensavam da frase “Nada vem fácil”, o colega meio budista ou taoista como ele se definia falou uma frase muito louca –na vida nada se consegue pelo esforço, mas sem esforço não se consegue nada. A secretária puxou seu caderno de anotações de pérolas retiradas de livros de auto ajuda e falou algo como - A vida é um espelho, se sorrimos para ela, ela sorri para nós, sorri para ela e fui adiante. O carinha das animações e fã destes livros e filmes meio RPG disse, – Cara não é bem assim, tem horas que tu te esforça um monte e nada da certo e outras tu não faz nada e tudo acontece, se lá, deve ser um esquema meio retroativo, ou então de vidas anteriores, tipo karma, saca?

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Fui para a rua, neste dia fui almoçar num bar natureba só para poder passar por dentro de um parque e ver se tinham crianças soltando bolhas de sabão, uma menininha tentava, mas só babava e cuspia tudo, mais adiante um menino mais esperto gerava imensas bolas que subiam com o vento e iam muito longe. Fui para perto e comecei a estourar as bolas, logo veio o choro e manhêêê, uma senhora furiosa começou a me xingar, vamos correr daqui.

No restaurante, pessoas brancas meio apáticas com roupas e sacolas meio desbotadas e 90% na cor crua ou aqueles tingimentos com as peças amarradas com cordão. Papos cabeça em geral e uma frase em voz mais alta, - Bah esta não vem fácil. Mas era só um comentário sobre o lançamento de um filme espanhol sem previsão de chegar ao Brasil.

Na saída do trabalho passei no centro só para comprar um brinquedo que tinha dado para meu sobrinho de dia da criança no ano anterior. Os camelôs tem tipo um avião com duas hélices e três anéis em sua frente, um incrível untador de sabão para estes anéis e um motorzinho que gira as hélices criando um bombardeio de bolas de sabão.

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Chegando em casa preparei o aparato gerador de bolas e fui para o playground do prédio, só tinha passado lá três anos atrás quando mudei para este endereço. Meio deprimente esta área, pequena, cercada de concreto com uma grama que não quer crescer por indignação de falta de sol e água. Sentado em um dos dois bancos liguei a geringonça, bolhas para todos os lados, era bonito de ver aquele trilho de bolhas no ar, girando de um lado para o outro formava um esguicho, parecia um lança chamas e em uma frestinha do muro entrava o resquício de sol da tardinha fazendo um arco íris nas bolhas que tocava. Foi muito divertido mas nada de sons ou letras saindo de nenhuma bolha .

É, a coisa tem que ser espontânea e natural, acho que esta era a lição. Então segui a vida, passando quase todas as noites no bar ao lado da farmácia, procurando bolhas de sabão por todos os lados, mães olhando atravessado por minha proximidade com as crianças fabricantes de Objetos Esféricos Efêmeros, a partir de um dia comecei a chamar as bolhas assim “OEE”, meio Silvio Santos isto, mas tinha que criar uma intimidade com este artefato que me jogou num mundo de curiosidade. Também passei a jogar na loteria com números gerados a partir dos passos do boneco de marshmelow, numerologia da frase e outras coisas.

Em uma manhã, com o sol no rosto confundindo toda a visão, passou uma imensa bolha toda cheia de cores distorcidas, como a capa de um livro de química que eu tinha na oitava série. A bolha realmente era enorme, quem a fez se esmerou, ela subiu, subiu e estourou exatamente a frente de uma placa que cortava a luz do sol, não saiu nada de dentro dela, mas na placa estava escrito.

24 horas, a partir das 9:00h.

Sem mais referência.

O que era isto?

Abaixo uma sala em construção.

Tinha que ser um sinal, mas o que significava?

Passou um mês,

Mais um mês,

Uma quinzena,

Como algo que funciona 24 horas poderia iniciar as 9:00 h? Incoerência. Ou seria mesmo um sinal, só pode.

Minha dedução, - tenho que rodar a cidade 24 horas ininterruptas a partir das 9:00 h, só pode, mas em que dia? Dia da inauguração da sala? Mas as obras continuam no mesmo estado.

Seria então na próxima terça feira, a partir das 9:00 horas, sempre pensei em uma terça feira de madrugada como o dia mais ermo dos sete.

CLOCK

Terça feira. Acordei as oito, nem pensei no serviço, tomei café, peguei uma mochila, água, casaco para a noite, um canivete, grana, parecia um piá indo para um acampamento no jardim de casa, as 8:40 estava em frente ao bar ao lado da farmácia aguardando a hora exata de sair.

2 comentários:

Luciano disse...

João a narrativa em primeira pessoa aproxima bastante o leitor da história, né? Gostei das imagens que vão se construindo. Fica o desejo de continuidade, gostinho de quero mais.
Abração tchê.

Quinhos disse...

É mermão, nada vem fácil!
Mas antes de ler o texro passei o mouse sobre ele e, imagine minha surpresa, eu aqui preparando uma aula sobre amplificadores e "me vem fácil" o tal circuito.
Ah sim, o circuito não me serviu pra nada além de lembrar que eu devia volar ao trabalho.
Já o texto foi de leitura agradável.
Abraço