Não fui nem para o lado do super, do serviço e nem para o lado onde as mesas atrapalhavam o trânsito, fui para aquele beco que passei uma ou duas vezes. Fui andando, olhando para frente, para os lados, para cima e para trás caminhando de costas.
Comecei a perceber que este beco era antigo, lembrava algo de uma ruela européia, aquelas estreitas e com prédios de três andares e sacadas com detalhes em ferro, umas plantas em meio as sombras, cadeiras de quem senta para ler um livro, algo meio nostálgico e romântico.
Parei para observar detalhes das portas, janelas, numeração dos prédios, caixas de correio, objetos escondidos nas entradas trancadas dos prédios. Estranho não ter ninguém na rua, apenas sons, vindo dos corredores iluminados por um sol de primavera extremamente agradável.
Observando estes corredores que dividem os prédios, da para ver algumas sobras de obras com uma certa organização, vasos de flores colocados aleatoriamente organizados, um pouco de mato, mas só para manter um charme. Cães? Não vejo cães e não sei por que parece que os moradores desta rua devem ser todos donos de gatos, talvez por estes labirintos formados entre prédios, janela que dão para telhados que podem ser pulados para sacadas, tudo me lembra os bichanos, até consigo ver um gato imaginário andando e roçando o corpo contra um objeto com aquela cara auto-suficiente, independente e não estou nem ai.
Logo a rua começa a terminar, tenho vontade de ficar por aqui e já antecipo saudades desta rua, minha vizinha desconhecida.
A rua termina, poderia dizer também, que começa aqui, mas a numeração foi crescente e termina aqui mesmo. Desemboca em uma rua larga, movimentada, clara, uma rua de trânsito com muitos ônibus, apesar disto tem certo movimento nas calçadas, como é um bairro meio boêmio cai no padrão de comercio típico dos habitantes e frequentadores. O público noturno não tem vez agora, os bares e restaurantes estão fechados, somente lancherias e seus indefectíveis produtos gordurosos, doces meio molhados, mesa cheia de farelos e aquelas máquinas de café que são limpas na mesma frequencia da caixa d'água do prédio onde moro.
Pego a esquerda, na rua que tem nome de um herói da minha terra, que nem lembro mais o que fez, mas toda cidade do estado tem uma rua com seu nome.
Caminho um pouco, apesar de ser cedo esta rua reflete claridade de todos os lados, o aconchego das sombras da rua anterior me faz falta.
Resolvo voltar pela mesma calçada, olhar novamente a rua que ficou em meus pensamentos e depois seguir de novo por este caminho.
Uma coisa eu tenho certo, não há caminho, distância, direção e velocidade que tenho que seguir hoje, só tenho que ficar no máximo até as 9:00h de quarta feira andando.
A rua está lá do mesmo jeito, e não é que agora vejo dois gatos silenciosos pulando telhados e sacadas?
Não noite anterior dei uma olhada no mapa, pelo menos das redondezas, para me situar, a maioria das ruas em um raio de 1 km eu já devo ter passado, ou ao menos parado em uma das pontas e caminhado mentalmente e visualizados os prédios.
Volto então para o meu caminho, pisando pela terceira vez aquelas pedras disformes e antigas da calçada, lá pelo décimo passo vejo uma entrada em arco, antiga, com plantas trepadeiras nela agarradas - opa, isto não estava aqui a minutos, não estava nas minhas lembranças exploratórias da região, muito menos no mapa que tinha olhado ontem.
Andando uns 5 metros além arco, abre-se uma espécie de praça totalmente redonda, deve ter cerca de 15 metros de raio, no centro um canteiro circular com plantas variadas e quatro bancos posicionados exatamente na rosa dos ventos desenhada no chão.
No limite externo deste circulo existem cercas baixas que delimitam os acessos das casas que circundam a praça, com jardins variados, expressando os gostos de cada morador. Não vejo ninguém, janelas abertas, sacadas com roupas pegando ar, prédios parecidos, com 2 andares e cores e texturas diferentes, plantas trepadeiras que extrapolam a fronteira dos terrenos.
Neste limite externo também existem quatro bancos alinhados com os bancos norte, oeste, sul e leste do canteiro central, todo o piso é de paralelepípedo extremamente gasto, realmente com aparência secular, de milhões de pés que os atritaram até ficarem polidos.
A paisagem que aparece por detrás dos prédios, acima dos telhados, é diferente do que deveria ser. Saí de uma rua plana, de um bairro fronteiriço ao centro com seus prédios altos e velhos, para o outro lado é uma planície longa cortada por um rio.
E o que vejo é, ao norte é um pico nevado, ao leste sinto uma brisa marinha com nuvens brancas e gaivotas, ao sul , ao longe uma cadeia de montanhas vermelhas e no oeste, acima da linha dos prédios, um pedacinho de um horizonte escuro iluminado por uns raios de uma tormenta.
Ando em círculos pelo canteiro, sentido horário, sentido anti-horário, mais de uma vez. E a cada romper dos limites imaginários gerados pelas pontas da rosa dos ventos, percebo uma mudança de temperatura de umidade e principalmente uma mudança em meu humor, entre norte e oeste nostalgia, oeste e sul algo parecido com esperança, fé. Sul e leste uma alegria estrema e finalmente entre leste e norte pareço voltar ao normal, ali também está o arco de entrada, ele mostra a rua lá fora, mas a paisagem acima dos prédios não tem nada a ver com a continuidade esperada.
Todas estas mudanças climáticas parecem ter efeito somente dentro do círculo e fora do canteiro, pois a vegetação dos jardins das casas e mesmo do canteiro não condizem com o clima proposto pelo quadrante.
Os bancos que estão alinhados na ponta de cada flecha da rosa dos ventos variam de cor, norte vermelho, oeste, amarelo, sul azul e leste violeta.
Sento primeiro no banco vermelho, de costas para o canteiro. A sensação de estar sobre um ponto cardeal, a fronteira entre dois outros, é de isolamento do ambiente e este isolamento também é emocional, nada parece interferir, olho para frente fecho os olhos e começo a ver algo parecido com o futuro, mas uma visão física, primal de um futuro, somente objetos, prédios, automóveis. São um conjunto muito grande de visões, ao abrir os olhos fui até o banco vermelho no lado oposto, cortinas fechadas as imagens familiares de meu passado, diversos objetos que tive, que quis ter, que desejei, que invejei; carros, roupas, casas, paisagens, brinquedos, todos vindo com suas cores e cheiro.
Já no banco interno amarelo, visão de pessoas. Que conheço que não conheço que acho que conheço, parentes, colegas, amigos, uns se indo, todos envelhecendo, pessoas diferentes sem dúvida, mesmo as tão próximas.
Todas estas visões eram processadas sob o efeito da ausência de sentimentos, assegurada pelos pontos cardeais e seu isolamento.
Mesmo ausentes do sentimento elas são visualizadas com a distorção do sentimento do momento onde elas foram memorizadas.
Banco amarelo externo, mais pessoas, todas conhecidas, alguma esquecidas, mas todas as pessoas e agora também todos os animais de meu passado.
Percebo que a diferença entre os bancos interno e externo de cada ponto cardeal não se resume a futuro e passado, é algo como uma visão externa e interna de mim. O que foi assimilado ou vivido por mim seja no passado, ou o que esta por vir ou que já passou ou deixou de acontecer comigo como personagem.
Banco azul interno, não vejo nada, somente sensações, dor, alegria, frio, náuseas, deslizar no tempo, aperto no peito, taquicardia. No banco externo nada muito diferente, apenas uma percepção de intimidade com as sensações.
Confesso que nesta hora já estou confuso, com medo, sinto-me desligado daquele mundo que vivi até horas atrás, que foi perturbado pelas bolhas de sabão.
O último banco, cor lilás, junção do vermelho material com o azul de pensamento, antes de fechar os olhos não olho para frente e sim para cima, e naquele instante tudo fez sentido.
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